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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Trump sanciona pacote de estímulo à economia americana

 Trump sanciona pacote de estímulo à economia americana 

Presidente dos EUA recua e libera 2,3 trilhões de dólares para auxílios emergenciais na pandemia de coronavírus e funcionamento regular do governo, seis dias após aprovação pelo Congresso. 

Donald Trump
Trump havia definido o texto como uma "desgraça", mas voltou atrás após pressão de republicanos e democratas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sancionou no domingo (27/12) uma lei que garante 900 bilhões de dólares (R$ 4,7 trilhões) para programas emergenciais de auxílio aos afetados pela pandemia de covid-19. 


O pacote inclui também 1,4 trilhão de dólares (R$ 7,3 trilhões) para custear o funcionamento de órgãos governamentais até setembro de 2021, que estavam ameaçados de ter que interromper suas atividades a partir desta terça-feira por falta de fundos. Se isso ocorresse, o rendimento de milhões de trabalhadores do setor público estaria sob risco. 


A sanção encerra um impasse de quase uma semana, após a recusa inicial do presidente americano em aceitar o texto, que havia sido aprovado pelo Congresso com o apoio de democratas e republicanos. Na última terça-feira, Trump definiu o pacote como uma "desgraça", e exigiu que o valor dos cheques de estímulo para americanos em dificuldades financeiras fosse elevado de 600 dólares (R$ 3,1 mil) para 2 mil dólares (R$ 10,4 mil) e que diversos gastos governamentais já planejados fossem retirados do texto. 


A recusa do presidente o fez ser alvo de crescente pressão de congressistas de ambos os partidos, que haviam chegado a um acordo, após meses de negociação com o governo, e aprovado o texto por larga margem de votos. 


Após recuar e sancionar o projeto, no seu clube privado Mar-a-Lago, na Flórida, Trump afirmou em comunicado: "Estou assinando este texto para retomar o pagamento de auxílios para desempregados, interromper despejos, oferecer apoio para [pagamento de] alugueis, prover mais dinheiro para programa de proteção da folha de pagamento, colocar nossos trabalhadores das companhias aéreas de volta ao trabalho, adicionar muito mais dinheiro para a distribuição da vacina e muito mais". 


Mais auxílio 


A lei sancionada por Trump garante um cheque de estímulo de 600 dólares (R$ 3,1 mil) para todos os americanos com rendimentos inferiores a 75 mil dólares (R$ 391 mil) por ano e subsídios de 300 dólares (R$ 1,6 mil) por semana a desempregados. 


O auxílio a desempregados está sendo pago para cerca de 14 milhões de pessoas e havia sido interrompido no sábado, mas será retomado agora que o presidente assinou o texto. 


O pacote também estabelece mais ajuda de custo para pessoas pobres comprarem alimentos, subsídios para sistemas de transporte público, dinheiro para os estados distribuírem vacinas, fortalecimento de um programa de empréstimo para pequenas empresas e mais fundos de apoio a companhias aéreas.

 

Os democratas concordam em elevar o cheque de estímulo para 2 mil dólares por americano, porém muitos republicanos já se opuseram à medida no passado. 

Integrantes do Partido Democrata prometem novos auxílios aos americanos após o presidente eleito Joe Biden assumir o cargo, em 20 de janeiro, enquanto os republicanos preferem aguardar a evolução da pandemia e da economia. 



Noticia: Dw.com

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Eleição testa estratégia de Trump de semear divisões

 Eleição testa estratégia de Trump de semear divisões 

Para o magnata, está sempre tudo bem. E quando não está, a culpa é de outro. Por quatro anos, ele declarou vários inimigos, como os imigrantes e a China. Agora, é a vez do próprio sistema eleitoral. 


Quando Donald Trump fala, ele faz tudo parecer simples. Há o certo e o errado, eles e nós. Os apoiadores o chamam de "direto" e o aplaudem por falar como eles mesmo o fariam. Para eles, trata-se de um "homem do povo", embora seja um magnata. Parte do apelo do republicano está justamente em não ser visto por seu eleitorado como um político. 


O 45º presidente americano com frequência descarta as complexidades da vida. Foi assim, por exemplo, quando falou em debate na TV em outubro. Durante uma troca acalorada sobre a pandemia, o moderador perguntou a Trump se havia um meio-termo entre dizer aos cidadãos que "todos vão morrer" - como o próprio presidente havia formulado momentos antes - e manter todos no escuro para evitar o pânico. Trump disse então: "Não, não há um meio-termo."

 

Fazer as pessoas escolherem lados, usando uma abordagem "dividir e conquistar", é uma das marcas registradas de Trump, diz Mitchell S. McKinney, pesquisadora da Universidade do Missouri que estuda a retórica presidencial. "Ele instiga um grupo contra o outro, para incitar o medo." 


Vários "inimigos" 

Tudo começou com os imigrantes. Durante a primeira campanha presidencial, Trump se referiu aos imigrantes mexicanos como "estupradores". 


Ele frequentemente faz declarações generalizando. Chamou, por exemplo, quem protestava contra a violência policial em Portland e Seattle de "anarquistas e agitadores doentes e desordeiros". A imprensa tradicional, para ele, é "fake”. 


Trump prefere manter as coisas simples, mesmo que isso signifique mentir. A julgar por seus discursos e entrevistas, geralmente está tudo bem. E se não está, não é sua culpa. Quando indagado durante o primeiro debate presidencial sobre sua resposta à pandemia, que já resultou em mais de 230 mil mortes relacionadas à covid-19 nos EUA, Trump foi rápido em apontar: "A culpa é da China, isso nunca deveria ter acontecido." 


Seu argumento recorrente, de que o país está se recuperando, ignorava as lutas que muitos americanos estão enfrentando: lidando com a morte de um ente querido, com sua própria saúde, a perda do emprego, negócios e até da moradia.

 

Propostas vagas 

Mesmo a agenda para seu segundo mandato foi uma versão simplificada em comparação com o que os candidatos presidenciais costumam oferecer. Como parte de sua campanha de reeleição, Trump divulgou uma lista com 54 pontos. 


Entre eles: "Construir o maior sistema de infraestrutura do mundo", "voltar ao normal em 2021", " criar 1 milhão de novos pequenos negócios" e "eliminar os terroristas globais que ameaçam prejudicar os americanos". Falta em sua agenda qualquer menção a uma estratégia, explicando, por exemplo, como seu governo alcançaria esses objetivos, como seria a "maior" infraestrutura ou o que significa "normal". 




"O que faz Donald Trump se destacar é sua relativa falta de ambição política", diz Bruce Buchanan, analista político da Universidade do Texas em Austin. "Outros presidentes vieram preparados com programas que envolviam iniciativas internas, econômicas e de política externa, mas Trump não teve uma agenda além do corte de impostos." 


Em 2017, o presidente assinou o Trump's Tax Cuts and Jobs Act (TCJA). Até agora, os especialistas concordam que a lei não aumentou o investimento empresarial ou os salários dos trabalhadores, como prometido. 


Steven Rosentahl, do Tax Policy Center, que fornece uma análise independente das questões tributárias nos EUA, conclui que os cortes de impostos corporativos do TCJA resultaram em cortes de impostos apenas para "acionistas - que tendem a ser ricos, incluindo um bloco considerável de estrangeiros - e, eventualmente, aumentos de impostos ou cortes de gastos para os demais". 


Um item de sua agenda - "Continuar nomeando constitucionalistas para a Suprema Corte e juízes de tribunais inferiores" - sempre se destacará como um sucesso para ele e para o Partido Republicano. 


Desde Richard Nixon, nenhum presidente nomeou mais juízes para a Suprema Corte durante um mandato. Após a morte de Ruth Bader Ginsburg, Trump conseguiu fazer o equilíbrio do tribunal pender para uma maioria conservadora. Ele escolheu Amy Coney Barrett, que é profundamente conservadora e veementemente contra o aborto, para ocupar o lugar de Ginsburg. Ela se une a Neil Gorsuch e Brett Kavanaugh, também indicados por Trump. 


O caos como cortina de fumaça 

Quando a política se complica, Trump é conhecido por criar o caos. E deixar o caos reinar em vez de assumir a liderança como presidente também significa que alguns de seus apoiadores tomam as rédeas da situação. 


Em agosto de 2017, supremacistas brancos foram às ruas de Charlottesville, Virgínia, para o comício "Unite the right". O grupo tinha entre si partidários de Trump usando bonés vermelhos "Make America Great Again". 


Eles se chocaram com manifestantes antifascistas, e o evento se tornou violento. Heather Heyer, que participava de um contraprotesto, foi morta. Em vez de repudiar os supremacistas brancos, Trump condenou "a demonstração de ódio, fanatismo e violência de muitos lados".  


Proteger seus apoiadores a todo custo tem sido um tema contínuo. Na campanha, Trump dirigiu-se diretamente a seus partidários em Portland, Oregon, durante o primeiro debate presidencial ao lado de Joe Biden. Os fãs de Trump e membros de grupos de extrema direita haviam ameaçado os ativistas de esquerda, e Trump lhes disse para "recuar e aguardar".

 

Buchanan toma isso como um sinal de que o presidente estava "implicando que em algum momento ele poderia chamá-los para um serviço de qualquer tipo, alguma ação violenta". 


A maneira do presidente de abordar questões, considera Buchanan, permitiu que "vários grupos descontentes com a cultura política lessem nela o que desejam". 


Imprevisibilidade 

Pesquisadora da retórica do presidente, McKinney descreve o estilo de Trump como de imprevisibilidade. "Pela manhã, ele dirá uma coisa e horas depois mudará de ideia", comenta. Os aliados se tornam inimigos no decorrer de um dia. O fato de que ninguém sabe o que ele vai dizer ou fazer tornou-se algo como uma estratégia, diz a especialista. 


O mais recente inimigo de Trump é o próprio sistema eleitoral americano. Atrás do democrata Joe Biden nas pesquisas, ele chegou à véspera da eleição ameaçando iniciar uma batalha legal sobre os resultados e levar o caso à Suprema Corte. 


Neste ano, devido à pandemia, houve votação antecipada sem precedentes na história americana. Antes mesmo deste 3 de novembro, dia da eleição, quase 100 milhões de americanos já haviam depositado ou enviado por correio seu voto. E isso pode gerar atrasos na apuração. 


Trump questiona o processo de apuração de votos antecipados e, sem evidências, aponta risco de fraude. Sua estratégia não é muito diferente da que, ao longo de quatro anos, implementou em vários outros temas: se não der certo, a culpa é de outra pessoa.