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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Em carta, eurodeputados alertam sobre cerceio a ONGs na Amazônia

Em carta, eurodeputados alertam sobre cerceio a ONGs na Amazônia

 

Parlamentares europeus manifestam a Mourão preocupação com proposta do Conselho da Amazônia de "obter o controle" sobre ONGs que atuam na região e destacam importância das entidades no combate ao desmatamento.

Presidente do Conselho da Amazônia, Mourão alegou que sugestão de controle sobre ONGs foi mal interpretada


Eurodeputados enviaram nesta quinta-feira (26/11) uma carta ao vice-presidente Hamilton Mourão contra uma proposta do Conselho Nacional da Amazônia Legal para a criação de um marco regulatório para organizações não governamentais (ONGs) que atuam na região.

A proposta foi revelada no início deste mês pelo jornal O Estado de S.Paulo, que teve acesso a documentos do Conselho da Amazônia, que é presidido por Mourão.

De acordo com a reportagem, um dos documentos aponta que uma das metas do órgão seria criar um marco regulatório para ONGs para "obter o controle" até 2022 de todas as organizações que atuam na região amazônica. O texto destaca ainda que o objetivo da medida seria autorizar a atuação apenas de organizações que "atendam os interesses nacionais".

Inicialmente, Mourão negou ter conhecimento sobre os documentos citados pelo Estadão. Depois, afirmou que houve uma interpretação errada sobre a questão, sem deixar claro se o Conselho da Amazônia levaria adiante o debate sobre uma proposta nesse sentido.

 

"Quem teve acesso à parte dessa documentação - porque essa documentação não foi distribuída em caráter público, ela é uma documentação interna de planejamento estratégico do Conselho - teve uma interpretação errada a respeito dessa questão de marco regulatório para organizações não governamentais", disse. "Essa questão de marco regulatório das organizações não governamentais não passa por nenhum estudo mais sério nesse momento."

Em reação à possibilidade de uma restrição ao trabalho de organizações, eurodeputados enviaram uma carta a Mourão e a integrantes do Conselho da Amazônia na qual demonstram preocupação e defendem a independência de ONGs que atuam na região. 

"Consideramos essa proposta, bem como outras tentativas de restringir ou controlar a sociedade civil muito preocupantes. O processo de autorização para ONGs já está bem regulamentado pela legislação brasileira", diz o texto. 

Assinada por ao menos 68 eurodeputados de vários países europeus e bancadas, a carta destaca a importância de organizações não governamentais no combate ao desmatamento, à proteção do meio ambiente e na promoção do desenvolvimento sustentável da Amazônia.

O texto ressalta ainda que essas entidades "ajudam a tornar as políticas públicas mais transparentes e eficazes ao exercer a crítica livre" e, pontua que a proposta de um marco regulatório "corre o risco de ser um ataque à independência de ONGs", além de "restringir indevidamente o espaço da sociedade civil". 

Na carta, os eurodeputados mencionam também o aumento recorde do desmatamento da Amazônia neste ano e argumentam que "limitar as operações de grupos sociais e organizações pode ter consequências devastadoras" diante desse cenário.

O texto afirma ainda que a sociedade civil tem um papel importante na boa governança da União Europeia, além de ser fundamental para o desenvolvimento.

"Neste contexto, gostaríamos de expressar nosso total apoio às organizações não governamentais que atuam para proteger a Amazônia. Manter sua independência e sua ampla gama de atividades é fundamental para nosso meio ambiente e clima. Portanto, instamos o senhor [Mourão] a repensar o papel da sociedade civil, entendendo que, como a liberdade de imprensa, ela é vital para democracias saudáveis", continua a carta.

 


Ao final, os eurodeputados se colocam à disposição para atuar ao lado do vice-presidente brasileiro e do Conselho da Amazônia para que metas de proteção ambiental e climática sejam alcançadas.


"Permanentes violações do Direito Internacional"

Segundo a eurodeputada alemã Anna Cavazzini, do Partido Verde, que promoveu a iniciativa, com a carta, os parlamentares pretendem exigir que o governo brasileiro não limite ainda mais a sociedade civil e, desta maneira, defenda a proteção da Amazônia, da população indígena e do clima. 

"Esta não é a primeira vez que o governo brasileiro mostra abertamente que deseja restringir o trabalho dos defensores dos direitos humanos e do meio ambiente na região amazônica", pontua Cavazzini, que também é vice-presidente da Delegação do Parlamento Europeu para as relações com o Brasil. 

Para o eurodeputado alemão Helmut Scholz, da legenda A Esquerda, a "preocupante proposta" pode dificultar a atuação de ONGs na Amazônia num momento crítico de aumento do desmatamento e queimadas. Segundo ele, a carta dá visibilidade internacional ao tema. Scholz espera ainda uma resposta de Mourão sobre os motivos dessa tentativa. 

A eurodeputada portuguesa Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, afirma que apoia a carta devido às "permanentes violações do Direito Internacional por parte do governo brasileiro, seja na destruição da Amazônia, seja nos ataques às ONGs, seja na perseguição dos povos indígenas". "São crimes contra a humanidade que a todos nós dizem respeito", acrescenta.

 

Alvos recorrentes de Bolsonaro

A proposta do Conselho da Amazônia está em linha com a postura que o presidente Jair Bolsonaro já demonstrou ter em relação à ONGs. Em diversos momentos, ele acusou sem provas essas entidades de serem responsáveis pelo desmatamento da região. 

No auge das queimadas em 2019, quando a política ambiental de Bolsonaro foi alvo de duras críticas internacionais, o presidente alegou que ONGs estariam promovendo incêndios em suposta reação a um corte de repasses federais a essas entidades.

 

"Então, pode estar havendo, sim, pode, não estou afirmando, ação criminosa desses 'ongueiros' para chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil. Essa é a guerra que nós enfrentamos", disse Bolsonaro em agosto do ano passado.

Acusação semelhante foi repetida neste ano durante a Cúpula da Biodiversidade das Nações Unidas, em setembro. Novamente sem provas, Bolsonaro culpou organizações não governamentais por crimes ambientais.

"Na Amazônia, lançamos a Operação Verde Brasil 2, que logrou reverter, até agora, a tendência de aumento da área desmatada observada nos anos anteriores. Vamos dar continuidade a essa operação para intensificar ainda mais o combate a esses problemas que favorecem as organizações que, associadas a algumas ONGs, comandam os crimes ambientais no Brasil e no exterior", disse Bolsonaro ao discursar no encontro.


Noticia: dw.com





 

 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Um Brasil historicamente perdido


Estudo acusa fraudes no comércio de madeira nobre no Pará















Troncos abandonados em floresta do município de Rurópolis, no Pará: 53% das árvores listadas como ipê no local não foram encontradas



Saulo de Souza/Esalq-USP

 


Proprietários de terras na porção leste da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, podem estar burlando o sistema de controle de retirada de madeira de lei – é o que dizem pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), em Piracicaba, por meio de artigo publicado em 15 de agosto na revista científica Science Advances.

“O volume de madeira declarado nas licenças de corte foi, no geral, muito superior ao esperado para as florestas da região”, conta o engenheiro agrônomo Pedro Brancalion, do Departamento de Ciências Florestais da Esalq, que liderou o estudo. “A discrepância foi ainda maior para as espécies de madeira mais valiosa e se concentrou em planos de manejo assinados por alguns poucos engenheiros, o que aumentou as suspeitas de fraude.” Seu grupo analisou mais de 400 inventários de fazendas no Pará e os comparou aos levantamentos de 11 espécies de árvores a partir de dados do Projeto Radar da Amazônia (Radam), criado na década de 1970 para mapear recursos minerais, vegetais, ocupação e uso do solo amazônico usando tanto radar como amostragem em solo.

Os resultados indicam que há grandes chances de fazendeiros e engenheiros estarem declarando árvores-fantasma, que na verdade não existem, sobretudo de espécies mais nobres, como jatobás e ipês. A medida engordaria o limite de corte permitido por lei, que exige que cada propriedade retenha ao menos 10% do total de árvores com potencial de corte. A quantidade máxima de madeira que se pode extrair por hectare de uma propriedade também é regulamentada e chega a 30 metros cúbicos (m3). Regiões da floresta tropical onde ipês são típicos contêm, no máximo, uma dessas árvores (equivalente a cerca de 5 m3) a cada 2 hectares. “Alguns planos de manejo declaram haver dois ipês por hectare”, diz o biólogo Saulo de Souza, do grupo da Esalq.

Apreensões do Ibama e uma investigação feita pela organização não governamental Greenpeace indicam que as árvores adicionais seriam cortadas em reservas indígenas, unidades de conservação, terras devolutas e áreas ribeirinhas, onde a extração não é permitida. O esquema funcionaria como uma “lavagem de madeira”, que dá um selo de legalidade ao material ilegítimo e permite sua distribuição aos grandes centros consumidores de madeira do Brasil e do exterior. “Às vezes, uma árvore simplesmente não existe no lugar descrito no plano de manejo”, conta Souza, que foi a campo verificar irregularidades. “Em outros casos, o fazendeiro declara um ipê onde há uma tanimbuca, chamada ipê-de-pobre, e na hora da venda substitui o tronco barato por madeira rara vinda de território indígena.”

 Ipês estão entre as árvores de madeira mais valiosa na AmazôniaMark Schulze/Universidade do Estado do Oregon

O exemplo concreto sai de seis propriedades examinadas em campo devido a grandes discrepâncias aparentes, que abrangem 671 mil hectares na região de Santarém. “Foi autorizada a extração de 2.189 m3 de ipê”, detalha Souza. “Porém, com as verificações de árvores imaginárias e superestimativas de diâmetro, entre outras, podemos dizer que eles inflaram esse número em pelo menos 40%, chegando até 50%.” Com base nisso, os pesquisadores calculam que algo como 1.000 m3 de créditos de madeira de ipê eram falsos e poderiam servir para legalizar a madeira obtida em áreas não autorizadas.

Depois de ser cortada, transportada e processada, a madeira de origem ilegal vai principalmente para a região Sudeste, para a Europa e os Estados Unidos legalmente, em geral para a fabricação de pisos. A madeira do ipê, por exemplo, chega a valer US$ 1.000 o m3. Os pesquisadores estimam que o comércio de madeira nas propriedades estudadas rendeu US$ 52 milhões ao longo do período estudado, entre 2012 e 2017. Isso equivale a um volume de quase 3 milhões de m3 de madeira oriunda de 482 mil árvores.

Segundo os pesquisadores, essa prática é comum na região e leva à degradação do ecossistema florestal, afetando seu papel na regulação do clima e das chuvas (ver Pesquisa FAPESP nº 226). “Em áreas de fronteira agropecuária, no Pará, a extração seletiva de madeira antecede o desmatamento”, diz a ecóloga Maria Isabel Escada, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que não participou do estudo e é especialista em sensoriamento remoto do uso do solo amazônico.

Entrevista: Pedro Brancalion
     
Por não deixar rastros muito maiores do que uma clareira, a exploração madeireira ilegal é mais difícil de rastrear por satélites do que o desmatamento e representa uma ameaça silenciosa à biodiversidade da floresta. De acordo com os pesquisadores, a atividade pode desencadear incêndios e, dependendo da intensidade, modificar as condições climáticas locais e as características e organismos da floresta. Como a exploração é mais intensa em espécies de maior valor comercial, a atividade pode acarretar sua extinção nas áreas em que ocorre.

Regulamentação
A lei define que os ciclos de colheita – tempo entre a primeira e segunda extração de uma árvore adulta – devem variar entre 25 e 35 anos, respeitando o tempo de recuperação da floresta. Mas a norma pode ser insuficiente, por não levar em consideração as estratégias de vida de cada espécie. “Em um ciclo de 120 anos o ipê recuperaria apenas 18% do volume colhido”, explica o engenheiro agrônomo Edson Vidal, da Esalq. “Já o jatobá recuperaria mais de 100%.”

Para atacar o problema e estimular o extrativismo sustentável, a equipe da Esalq recomenda um novo sistema eletrônico para registrar e administrar as autorizações de exploração, disponibilizando as informações em um portal que permita o confronto de dados e solicite uma verificação de campo em caso de suspeita. “Também sugerimos um sistema mais eficiente de vistorias em campo e uma moratória de madeira”, diz Souza. “A exploração madeireira é uma atividade econômica legítima e não tem que ser proibida, mas bem regulamentada e fiscalizada”, completa Brancalion.

Projeto
Restauração ecológica de florestas ciliares, de florestas nativas de produção econômica e de fragmentos florestais degradados (em APP e RL), com base na ecologia de restauração de ecossistemas de referência, visando testar cientificamente os preceitos do Novo Código Florestal Brasileiro (nº 13/50718-5); Modalidade Projeto Temático; Programa Biota; Pesquisador responsável Ricardo Ribeiro Rodrigues (USP); Investimento R$ 2.650.033,32.
Artigo científico
BRANCALION, P. H. S. et al. Fake legal logging in the Brazilian Amazon. Science Advances. v. 4, eaat1192. 15 ago. 2018.