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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Alemanha preocupada ,com energia nuclear na Polônia !

 Ruínas da usina nuclear de Zarnowiec

Planos de energia nuclear da Polônia preocupam Alemanha

Varsóvia quer ativar seu primeiro reator nuclear em 2033 para diminuir dependência do carvão mineral. Berlim teme pela segurança da população alemã.

A Polônia quer diminuir sua dependência do carvão mineral e pretende, para isso, começar a produzir energia nuclear. O projeto Política Energética da Polônia até 2040 (PEP2040), aprovado no início deste mês pelo governo do país, prevê a construção de seis unidades atômicas em duas localidades. As obras estão previstas para começar em 2026, o primeiro reator deve entrar em operação em 2033. O último, dez anos depois.

Membro da União Europeia (UE), a Polônia tem de desenvolver novas fontes de energia para atingir os objetivos climáticos do bloco. Atualmente, 70% da energia consumida nacionalmente provêm de usinas de carvão, o que torna a Polônia um dos maiores poluidores europeus.

Mas a transição energética polonesa não se deve apenas à pressão externa, ela é também uma necessidade interna urgente. As reservas de carvão do tipo linhito no centro da Polônia, que atualmente fornecem 20% da energia, estarão esgotadas em 2035.

Gás natural também vai se tornar mais escasso em breve, já que um acordo sobre o combustível com a Rússia expira no fim de 2022. O gás russo cobre atualmente 5% do consumo de energia da Polônia. Mas Varsóvia não quer prorrogar o contrato, por causa do preço alto e de tensões políticas com Moscou.

 Solução aparentemente perfeita

Para a Polônia, as usinas nucleares parecem a solução perfeita para preencher as duas lacunas ao mesmo tempo. O início da produção de energia nuclear no país era planejado já na década de 1970. Após o desastre de Chernobyl, em 1986, a construção de dois reatores do tipo soviético em Zarnowiec, 80 quilômetros a noroeste de Gdansk, foi interrompida. Depois disso, houve repetidas tentativas de um recomeço. As usinas nucleares agora planejadas provavelmente ficarão em Zarnowiec e na vizinha Lubiatowo-Kopalino.

Presidentes da Polônia, Andrzej Duda e dos EUA, Donald Trump

Mas a Polônia não pode financiar o projeto sozinha. Os reatores planejados, com uma produção total de 6 a 9 gigawatts, custariam até 30 bilhões de euros (R$ 197 bilhões), segundo estimativas. De acordo com o primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, apenas parceiros certificados da Otan e do mundo ocidental seriam considerados para transferência de dinheiro e tecnologia.

O parceiro preferido de Varsóvia seria os EUA. O ex-presidente Donald Trump suscitou grandes esperanças ao prometer o apoio de empresas americanas quando o presidente polonês, Andrzej Duda, visitou Washington, em junho de 2020. O encontro colocava a "Polônia na direção certa", nas palavras de Morawiecki. Menos de um mês antes da derrota eleitoral de Trump, os EUA e a Polônia assinaram um acordo preliminar para construir seis reatores.

Quando a Polônia perdeu Trump, seu maior aliado, a França entrou no jogo. Em 2 de fevereiro de 2021, o dia em que o governo de Varsóvia adotou a estratégia energética, o ministro francês do Comércio, Franck Riester, viajou a Varsóvia para oferecer cooperação nuclear à Polônia.

Reatores grandes ou pequenos?

Um representante da estatal Électricité de France falou na mídia polonesa sobre um financiamento de dois terços dos custos do projeto e promoveu o "European Pressurized Reactor" (EPR) francês, que também já está em operação em Taishan, na China. Os reatores gigantescos, com uma potência de mais de 1000 megawatts são exatamente o que os estrategistas de energia poloneses têm em mente.

 Mas o especialista em energia Marcin Roszkowski, do think tank Klub Jagielloński, de Varsóvia, considera essa ideia ultrapassada. "Atualmente, também há reatores em formatos muito menores, com potências de 50 e 100 megawatts. São os chamados reatores modulares. Eles podem ser interligados, podem ser construídos espalhados por uma área maior e abastecer cidades e fábricas individuais com energia", diz.

"Nesse caso, um grande desastre também seria descartado", continua Roszkowski. Os reatores menores, usados ​​atualmente em navios quebra-gelo, também poderão ser aprovados comercialmente dentro de alguns anos. Em 2019, o bilionário polonês Michal Solowow ofereceu-se para construir esses reatores e iniciou uma colaboração com a gigante nipo-americana GE Hitachi.

Os planos poloneses também vão contra a tendência europeia de mudar para fontes de gás e energias renováveis, segundo os especialistas. "Com as tecnologias atuais, não é uma dificuldade elevar a parcela das energias renováveis ​​para 80% da matriz energética. Os 20% que faltam seriam por conta do inverno na Polônia, quando há pouco vento e pouco sol", afirma o físico nuclear Marcin Popkiewicz, da Universidade de Varsóvia, ressaltando que a construção de usinas nucleares é também muito cara. "Para os clientes, o custo da energia nuclear pode exceder em cinco vezes o custo da energia renovável", diz.

Entre carvão e átomo

 O desenvolvimento de energias renováveis ​​também faz parte da estratégia do governo polonês – mas está progredindo lentamente. Durante anos, sua participação na matriz energética polonesa estagnou em pouco menos de 14%, o que está abaixo da média europeia de 20% (segundo dados de 2020). Um avanço deve ocorrer em 2025, quando os primeiros parques eólicos da Polônia no Mar Báltico entrarem em operação. Espera-se que eles alcancem uma capacidade de 8 gigawatts até 2040.

Mas o maior problema com a transição energética é a eliminação do carvão, que ainda representa 50% do fornecimento de eletricidade. Em contraste com o carvão do tipo linhito, o carvão betuminoso será extraído ainda até pelo menos 2050. Mais de 100 mil empregos dependem da indústria, motivo pelo qual o governo está hesitante em fechar as minas de carvão.

Preocupações na Alemanha

Paradoxalmente, a energia nuclear, que é "limpa" em termos de emissão de gás de efeito estufa, poderia retardar ainda mais esse processo. Porque se as emissões de CO2 da Polônia caírem graças às novas usinas nucleares, a pressão da UE para reduzir a produção de carvão também poderá diminuir.

 Essa não é a única razão pela qual os planos nucleares da Polônia já estão causando preocupação na vizinha Alemanha. De acordo com um relatório de especialistas encomendado pela bancada parlamentar do Partido Verde em janeiro de 2021, as usinas nucleares, que seriam localizadas a apenas algumas centenas de quilômetros da fronteira com a Alemanha, representariam um alto risco de segurança para a população alemã.

"Este relatório avaliou tudo com base nos dados meteorológicos dos últimos três anos. Com uma probabilidade de 20%, um acidente nesta usina nuclear planejada também afetaria a Alemanha", explica Sylvia Kotting-Uhl, presidente da comissão de meio ambiente no Bundestag. "Na pior das hipóteses, 1,8 milhão de alemães estariam expostos à radiação de mais de 20 milisieverts. A partir desse valor, seria necessária uma evacuação. Berlim e Hamburgo, por exemplo, seriam afetadas, portanto, regiões muito densamente povoadas”, diz a parlamentar do Partido Verde.

O Ministério do Clima polonês enfatiza que foi realizada uma avaliação de impacto ambiental estratégico do programa de energia nuclear. A pasta afirma que a Alemanha também participou das consultas e apresentou 30 mil comentários, dos quais alguns foram considerados.

A Alemanha quer garantir que continue a ser consultada nos planos da usina nuclear polonesa. "Para o governo alemão, é crucial que, se a Polônia começar a produzir energia nuclear, seja garantido o mais alto padrão possível de segurança nuclear, proteção contra radiação e segurança também para Estados vizinhos que possam ser diretamente afetados", afirmou o Ministério do Meio Ambiente da Alemanha. O órgão também destaca ser regra internacional que, no caso de potenciais efeitos negativos sobre outros Estados, estes sejam envolvidos e consultados.

Noticias:https://www.dw.com/pt-br/planos-de-energia-nuclear-da-pol%C3%B4nia-preocupam-alemanha/a-56620030

 

 

 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Estudo alemão vê Brasil em rota cada vez menos democrática


Estudo alemão vê Brasil em rota cada vez menos democrática

Pesquisadores da Fundação Bertelsmann destacam ascensão do populismo de direita no Brasil. Relatório posiciona país ao lado da Hungria e da Índia como exemplo negativo de democracia que vem sofrendo abalos.





A continuidade da crise política brasileira, a polarização da sociedade, a fragmentação partidária, a persistência dos problemas econômicos e o radicalismo do presidente Jair Bolsonaro contribuíram para mais uma queda do Brasil no Índice de Transformação Bertelsmann (BTI), publicado a cada dois anos e que avalia a consolidação da democracia e da economia de mercado em países em desenvolvimento. 

A continuidade da crise política brasileira, a polarização da sociedade, a fragmentação partidária, a persistência dos problemas econômicos e o radicalismo do presidente Jair Bolsonaro contribuíram para mais uma queda do Brasil no Índice de Transformação Bertelsmann (BTI), publicado a cada dois anos e que avalia a consolidação da democracia e da economia de mercado em países em desenvolvimento. 

Os autores apontam o Brasil, ao lado da Hungria e da Índia, como um exemplo negativo de democracia outrora estável que vem sucumbindo ao desmantelamento do Estado de direito e das liberdades civis. "Exemplos disso são o nacionalismo hindu na Índia, o populismo de direita no Brasil ou o curso autoritário da Hungria, membro da União Europeia. Os desenvolvimentos nesses países são representativos da crescente polarização política que também está abalando as democracias consolidadas", destacam os autores.

Segundo o ranking divulgado nesta quarta-feira (29/04) pela Fundação Bertelsmann, da Alemanha, a nota consolidada do Brasil no índice – que vai de 0 a 10 – retrocedeu de 7,3 para 7,2 entre 2018 e 2020. É a pior nota já concedida ao país desde o início da série, em 2006.

Em 2014, quando a crise econômica e política ainda não havia afetado tanto o país, a nota consolidada chegou a 8,0. Desde então, outros fatores, como o impeachment de Dilma Rousseff, a instabilidade do governo Michel Temer, a decadência econômica e a crescente desconfiança da população brasileira com o sistema democrático já haviam levado o Brasil a perder pontos em 2018.

No ranking mais recente, o Brasil acabou ultrapassado por países como Jamaica e Argentina e ficou empatado com Montenegro e a Macedônia do Norte. A queda só não foi maior porque outros países que estavam antes à frente do Brasil, como a Hungria, retrocederam ainda mais, e outras nações passaram a ser analisadas pelo índice.  

A lista de 2020 inclui 137 países. A piora levou o Brasil a cair da 22ª posição para 23ª no ranking geral.

Quando analisada apenas a saúde democrática do país, a nota concedida ao Brasil decresceu de 7,7 em 2018 para 7,4. Em comparação com outros países da América Latina, nesse quesito, o Brasil aparece bem atrás de nações como Argentina (nota 8,2) e Uruguai (9,9). Em 2014, o indicador brasileiro de democracia alcançou sua nota mais alta no índice BTI: 8,2, ocupando a 17° posicao. Desde então, só decresceu. 


Destaques sobre o Brasil


A análise da situação brasileira não cobriu boa parte do primeiro ano do governo Bolsonaro. O texto, por exemplo, deixa de fora marcos da administração, como a aprovação da reforma da Previdência, a queda de vários ministros, os seguidos choques com o Congresso e com o Judiciário, o crescente isolamento internacional do país e as intermináveis crises no interior do governo, além das ofensivas do governo contra adversários. 

Algumas expectativas, como a de que o pais fosse voltar a um caminho sustentável de crescimento econômico, acabaram sendo atropeladas pela pandemia de covid-19 e a dificuldade do governo em propor e implementar reformas. O relatório ainda apontava que a nomeação de Sergio Moro para o Ministério da Justiça em 2018 sinalizava que a questão do combate da corrupção seria importante para o governo. 

Alguns trechos também envelheceram. "Ainda é muito cedo para julgar até que ponto Bolsonaro, como presidente, continuará promovendo divisões na sociedade brasileira", destacaram os autores, sinalizando que a análise só levou em conta as primeiras semanas do governo em 2019.

Ainda assim, os autores expressam preocupação com as tendências autoritárias que o presidente demonstrava no início do ano passado. "Mesmo que apenas uma parte das medidas sociopolíticas anunciadas por Bolsonaro sejam implementadas, a agenda política do Brasil se tornará cada vez mais iliberal", destacam os autores. 

"O presidente de direita Jair Bolsonaro, que está no cargo desde janeiro de 2019, pressionou a polarização através de sua retórica excessiva contra a ‘esquerda’, mulheres, grupos LGBT e indígenas e afro-brasileiros. A eleição de Bolsonaro foi resultado da polarização social e, ao mesmo tempo, a alimentou."
"Se levarmos em conta a retórica do novo presidente Bolsonaro a sério, não há mais consenso sobre democracia como objetivo estratégico e de longo prazo no Brasil. Bolsonaro falou a favor da tortura, glorificou nostalgicamente a ditadura militar brasileira (1964-1985) e causou indignação repetidamente com comentários iliberais, racistas, anti-mulheres e anti-gays", aponta o texto. 

Outros destaques
O índice também pintou um cenário nada positivo para outros países, apontando que padrões governamentais autoritários aumentaram continuamente na última década. 

Dos 137 países examinados no índice de 2020, 63 são classificados como autocracias e 74 como democracias (54%). Em 2010, o percentual de países democráticos era de 57%.

Embora a queda no índice de democracias não seja tão expressiva, as avaliações da qualidade da democracia, economia de mercado e governança em todo o mundo caíram para o pior nível desde que a pesquisa é feita. Os autores citam a garantia do poder e o clientelismo como as causas da redução mundial da democracia, que intensificou a desigualdade econômica e contribuiu para a divisão da sociedade.

"O nacionalismo e as políticas clientelistas não são novidades, mas se tornaram socialmente aceitáveis em todo o mundo", disse Brigitte Mohn, da diretoria da Fundação Bertelsmann. "Até países antigamente pioneiros em democracia e que ficam no meio da Europa, como Polônia e Hungria, estão agora entre os casos problemáticos em termos de estado de Direito e qualidade da democracia", acrescentou.

A qualidade do governo caiu significativamente em 42 países nos últimos dez anos, mesmo em países populosos e economicamente importantes, como Egito, Índia, Indonésia, México, Nigéria. A Turquia foi pela primeira vez classificada como autocracia, devido a restrições maciças à liberdade de imprensa, desrespeito pelos direitos civis e abolição da separação de poderes.
As liberdades de expressão e de imprensa caíram em metade dos países examinados. Em cerca de um quinto dos países em desenvolvimento e em transição, a qualidade da democracia diminuiu ou o nível de repressão aumentou.

De acordo com os autores da pesquisa, um dos motivos para a fragilização das democracias é que os atores políticos são incapazes de resolver problemas ou se comprometer. A maioria dos governos não têm resposta para o fato de amplos setores da população serem excluídos econômica e socialmente. A pobreza e a desigualdade são comuns em 76 dos 137 países analisados, incluindo 46 dos 50 países africanos analisados.

Entre os 42 estados avaliados como "muito bem" ou "bem" governados, há apenas um país considerado como uma autocracia: Cingapura. Por outro lado, entre os 46 países com governança fraca ou fracassada, existem apenas cinco democracias: Bósnia e Herzegovina, Lesoto, Líbano, Nigéria e Hungria.

Mas há esperança de melhora. Entre os exemplos positivos apontados pelo estudo está o Equador, que, segundo os autores, superou um regime cada vez mais autoritário. Além disso, processos de democratização estão começando em lugares inesperados, como na Armênia e na Malásia. O estudo aponta ainda pontos positivos contra a tendência autoritária na Etiópia, na Argélia e no Sudão.